Rastilho de Póvora

Rastilho de Póvora

A polêmica do momento, em redes sociais, é apropriação cultural. O conceito não chega a ser novo, mas ganhou destaque, neste início de mês, depois que uma jovem com câncer afirmou ter sido criticada por usar um turbante. O caso rapidamente migrou do Facebook para Twitter,

Instagram e YouTube e a discussão chegou aos veículos de mídia tradicionais, até que uma marca de móveis viu no burburinho uma oportunidade de aparecer – e se dar mal. Será esse o caminho a ser percorrido pelas próximas polêmicas?

Entre fevereiro de 2016 e 2017, no Brasil, “apropriação cultural” foi citada 106,6 mil vezes no Twitter, sendo 55,5 mil vezes só neste início de mês. O pico ocorreu depois que Thauane Cordeiro, de Curitiba, afirmou no Facebook ter sido criticada por uma mulher negra, enquanto estava no metrô, por usar um turbante, o que, aos olhos da mulher, seria apropriação cultural. Thauane afirmou ter usado o acessório para esconder a queda de seus cabelos, em decorrência do tratamento de um câncer.

O post tocou os usuários, motivando 137 mil reações, 38 mil compartilhamentos e 1.354 comentários, até o dia 15 de fevereiro. As mensagens eram de apoio à jovem e de repúdio às críticas que sofreu (https://goo.gl/LmEL8U).

Muitas das mensagens continham críticas não só ao debate sobre apropriação cultural, mas também ao movimento negro como um todo. Foi a partir daí que nomes relevantes dessa militância se posicionaram a respeito.

A filósofa Djamila Ribeiro usou o Facebook para advertir sobre a função do debate que, para ela, não é decidir quem deve ou não usar determinada peça de roupa, mas porque negros continuam à margem da sociedade quando suas produções culturais são usadas para gerar lucro. Essa declaração também teve grande repercussão, com 16 mil reações, 3.958 compartilhamentos e 32 comentários (https://goo.gl/vFnGaz).

No Twitter, o fenômeno se repetiu. A maior parte das mensagens se solidarizava com Thauane pela doença e levantava ressalvas ao debate e à militância (https://goo.gl/hTFFqC).

Porém, nesta rede, alguns usuários se referiram à mulher que teria abordado Thauane como “feminista”, quando na realidade não se sabe se ela era de fato ligada ao feminismo (https://goo.gl/kptTLF).

A confusão entre os personagens de cada militância mostra que ainda não está totalmente claro para o grande público quem de fato luta por qual causa. O debate chegou ao YouTube com a mesma polarização. A jornalista Tia Má, com mais de 48 mil seguidores, apresentou

argumentos parecidos com o de Djamila. Em seu canal, Izzi Nobre, que tem 360 mil seguidores, criticou os movimentos de militância. O primeiro vídeo foi visualizado 26.452 vezes (https://goo.gl/ky4rVX), enquanto o segundo foi visto em 67.517 oportunidades (https://goo.gl/kf6G6h).

Entre os portais que noticiaram o caso, o importante era explicar para o público o motivo da confusão, como fez Folha (https://goo.gl/yRx3gs), Extra (https://goo.gl/KOKAxA), The Huffington Post (https://goo.gl/NkimFW) e Catraca Livre (https://goo.gl/iVHDlb). Rapidamente a marca de móveis em aço inox Alezzia aproveitou o episódio e saiu em defesa de Thauane, com a hashtag #VaiTerTodosDeTurbanteSim. Convidou internautas a mandar fotos com o acessório e publicou 60 imagens no Instagram (https://goo.gl/4YWy1o). Além disso, a empresa contratou a jovem para trabalhar em sua equipe (https://goo.gl/G1hbT6).

Mais rápida ainda foi a revolta dos internautas, que atacaram a Alezzia pelo oportunismo, resgatando outras polêmicas em que ela se envolveu por machismo (https://goo.gl/sgHTeV). Ou seja, a pequena empresa regional ganhou visibilidade, mas talvez sem retorno financeiro. Ao defender suas ideologias de maneira pouco polida, agradou a poucos. A internet mostra que, apesar do estranhamento inicial, o amplo debate étnico-racial e de gênero é cada vez mais comum e o melhor é tomar partido da empatia, com todos os lados.

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